Sabe qual é a única vantagem de marcar um teste ergométrico às 6:30 da madrugada de sábado? É que, se cair no Dia Internacional da Mulher, você ganha uma bolsinha de pano e pode salvar o planeta, de saquinho em saquinho plástico economizado.
E essa, meus amigos, é a única vantagem de marcar um teste ergométrico às 6:30 da madrugada de sábado. Juro.
O dia amanheceu maravilhoso e ensolarado e eu nem podia acreditar na demência que tinha cometido ao agendar esse exame, mas levantei e, em meio a muitas remelas, fui pro laboratório brincar de hamster. Pelo menos, pensei eu, assim que chegar em casa vou colocar o biquini e ir pro terraço pegar um solzinho.
Primeira coisa que a enfermeira avisa: “Não vai poder pegar sol por uma semana”. Fuó fuó fuó fuóooommmm. ASSIM. Sem nenhuma preparação. Sem o gato subiu no telhado. Tipo, sifudeumermão, cada um com seus problemas.
“Mas por que?”, eu perguntei, num momentâneo regresso aos meus 7 anos de idade.
“Por que eu vou lixar o seu peito (MAS HEIN???)”, a enfermeira respondeu, começando imediatamente a LIXAR O MEU PEITO com uma lixinha d’água. Eu ri. Tipos, “Hellow, você tem idéia que o esfoliante que eu uso é muito mais lixudo que isso aí?”
Ela riu, e diante da minha atitude “pega nada, vou tomar o maior bronze hoje ainda”, ela avisou: “é, mas tem também a cola dos eletrodos”.
Ah, tsá.
“E tipo, vocês bem podiam avisar isso ANTES de eu acordar às 6 da manhã pra fazer o exame, né?”
“Se você quiser desmarcar e fazer outro dia, tudo bem”, ela disse, ignorando tantos fatos ao mesmo tempo que eu nem poderia enumerar. Mentira, poderia sim: eram seis e meia da manhã, eu já estava acordada, de banho tomado, vestida para exercício, na putaquiupariu do laboratório, deitada na cama, cheia de eletrodos colados no meu peito que, ah, aliás, já tinha sido fucking lixado. Caralhos.
“Não, meu bem, relaxa que eu vou fazer esta pourra má é agoura mesmo”, eu disse, sem usar a parte que minha mãe reprovaria.
Ela chamou o doutor. O doutor chegou. Ele era alto e coroa e com cara de rico e eu pensei: que caralhos esse médico coroa rico está fazendo trabalhando no sábado às 6:30? Ah, os paulistas!
Tirei pressão. Nove por seis, o de sempre. Subi na esteira, com 14 eletrodos plugados no meu peito. Na frente da esteira, um quadrinho com a escala de Borg de esforço, ou qualquer coisa assim. Muito fácil, razoavelmente fácil, fácil, razoavelmente cansativo, muito cansativo e exaustivo. O doutor avisou que chegaríamos apenas até o muito cansativo. Bom.
Começou com três minutos de caminhada leve. Fiquei praticando respirações lentas e longas pra enganar os eletrodos. Quando o doutor perguntou, eu disse que estava muito fácil (claro, imagina se eu ia admitir que logo nos 3 minutos estava qualquer coisa além disso? Dã.) A enfermeira mediu a pressão.
Ele aumentou a velocidade um pouco. Ficou razoavelmente cansativo, avisei que minhas pernas estavam começando a sentir. E eu esqueci de fazer a respiração enganadora, e minha pressão subiu mais um pouco. Eu não estava conseguindo enganar os eletrodos muito bem.
O doutor avisou que ia aumentar para 6,5km/hora dali a 15 segundos, mas que não era pra eu correr, mas sim andar bem rápido. Ouquei. Ele aumentou, eu comecei a quase marchar. Se soltasse as alças da esteira, creio que voaria na parede atrás de mim. A enfermeira tirou a pressão, continuava subindo. Falei pro doutor, ou mellhor, arfei pro doutor que estava muito cansativo. Ele perguntou se eu aguentava pelo menos mais um minutinho. Falando assim, fiquei com vergonha de recusar. “Claro, magiiiina!”
Teve início então um dos minutinhos mais longos de toda a minha existência. A tabela de Borg me encarando e eu pensava, cadê o “morri, caralho!” depois do “exaustivo”. O doutor dizia: só mais vinte segundos. Puxa, pelo menos ele podia dizer segundinhos, pra me encorajar. Ah, os médicos e sua habitual frieza. Uma hora se passou. “Só mais quinze segundos”. Mais uma hora se passou.
“Daqui a cinco segundos a esteira vai parar meio rápido, cuidado pra não cair”. Cuidado pra não cair é tipo a frase tema da minha vida. Fiquei preocupada. Já estava meio tonta. A máquina parou e fiquei ali, zonzinha. O doutor mandou deitar na cama novamente, e avisou que era normal ficar meio tonta. Ouquei, então.
“Você está fora de forma”.
WHAT?
“Você devia ter conseguido ficar pelo menos uns 9 minutos e dar uma corridinha, mas você só ficou sete minutos.”
Não, tá dizuera que eu fiquei SÓ SETE MINUTOS! Mas era verdade. E mal sabia ele que, em vez de “muito cansativo”, na escala de borg eu tinha atingido o “oi, minha canela está derretendo e estou engasgando com meu coração”.
Fiquei mais quatro minutos me recuperando e medindo pressão e me sentindo aquelas obesas mórbidas da Oprah que precisam ser erguidas por um guindaste pra fazer pipi. Lembrei de uma vez em que, ao saber que eu estava me exercitando, meu chefe disse: “Puxa, que coisa, você sempre foi o meu ideal de sedentarismo!”. Tipos, super motivador, ele. Meu chefe ficaria orgulhoso de mim hoje, sedentariando loucamente na esteira do laboratório por míseros sete minutos, na velocidade em que ele começa a se aquecer para sua corrida diária de mais de 30 quilômetros, o puto.
Levantei, sacudi a poeira, dei a volta por cima, encontrei o Paulo na recepção e fui embora. Pensando que, para 6:30 da manhã e pra quem tem um shunt do forame oval no coração (nada grave, mas o nome é massa, não?), até que eu fui bem. Bem sedentária.

Fofis, há muito não ria tanto com seus posts. Nesse vc tava muito inspirada!!! Beijos saudosos, amiga!!!
Você é hilária.
Paula, ninguém conta o cotidiano de forma tão engraçada como você, vc é demais!(ia usar outra palavra, mas mamãe não aprovaria) rs
Agora sério, tudo ok com a saúde?
beijocas
Nem preciso fazer este teste pra saber que me enquadro no sedentarismo… rs
Ótimo texto! Beijo! =D
Putz. I feel ya. Aqui a sumuvabitch da cardiologista me pegou com um teste de esforço sem avisar, “triagem para a consulta”. E eu de bota de couro. E teje orgulhosa, porque eu só fui até 6 minutos.
Ei, pelo menos te deixaram de camiseta? Minha amiga fez sem blusa com o médico sentado na frente, observando. E ela é uma mulher de peito, compreende? Abuso.
Beijos
Ai, Paula, “sedentariando loucamente” foi a melhor do dia!!
Vou adotar como bordão.
Beijoca!
Quá, quá, quá. Tava levando meio que a sério, até que cheguei no ponto em que você diz que se tirasse as mãos das alças, voava na parede. Óbvio que te vi sendo arremessada contra a parede. Óbvio que depois disso quase me mijei de tanto rir. Shunt do forame? Is that what they’re calling it these days? Claro que você já leu mais de 50% da literatura mundial sobre o assunto, mas olha aí o que relaciona o tal shunt com as famigeradas enxaquecas: http://www.sbce.med.br/rmc/arquivos/jan-fev-mar%202007/M&C%201%20-%202007%20-%20Educa%C3%A7%C3%A3o%20m%C3%A9dica%20continuada.pdf.
Bjs e saudades
Ataques de riso incontroláveis no meio do ambiente amistoso de um IB… =)
Adorei!! Vou usar essa no meu trabalho do 8º período de Educação Física, onde falaremos sobre sedentarismo!!
Comprei uma esteira e coloquei na varanda. Faço uma hora, uma hora e meia todo dia. Além de ter dado um toque legal na decoração da varanda, é muito bom ficar deitado na esteira de palhinha pegando um solzinho da manhã lendo o jornal…
Além disso, me dedico a um novo esporte que eu mesmo desenvolvi, a partir da prática da caminhada: o CAMAENADA. Deitado na cama e nada…
Beijos.
=8-)))) !!!!
Que delícia de texto !
Ai que eu me identifiquei total.
Fiz teste de aptidão física na academia ontem, credo que m. descobrir que meu fôlego foi pro espaço.
Beijos.
ahahah e vamos suuuuper sedentários mesmo
então quer dizer que a esteira RIU DA PAULA hahahhaah
eu sempre digo isso quando minhas amigas vão pra academia, elas dizem:
to morta!
e amanhã ainda tenho acadeia!
eu vivo falando que nem adianta ir, pq é pisar na calçada e a academia rir de vc….
ahah
mas não se preocupe, ela rola de rir comigo tb
Mas no ultimo teste ergométrico que fiz, athé que me sai bem viu…
Só não tinham me avisado que eu ia suar como um porco gordo e eu tinha que trabalhar em meia hora.
O que não é ter um bom desodorante na mochila não?
salva a pele.
***ironicamente foi o exame de rotina em que eu soube do resultado-voce-sabe-qual, mas é passado já…
bejos keridha!
Oi Paula:
Você é incrível. Capaz de transformar qualquer assunto em texto bom de ler. Muito bom.
hahahaha
adorei seu relato, foi muito parecido comigo, pra piorar, a enfermera era novata e não queria errar nada, quase uma oficial da Gestapo.
Fui a pé fazer o exame, saindo do Itaim até a Republica do Libano, tossindo por causa dos carros e onibus, e me perguntando, porquediabos eu marquei as 6:30am?
Anets de fazer qualquer outro exame, vou esperar você fazer
:)
Que saudade dos seus textos!!! QUE DELÍCIA, isso sim!!
Viva o Epinion!
Beijos saudosos…
muito bom teu post Paula, já fazia um tempinho que não entrava aqui, o teu blog foi um dos primeiros a que “segui”, sempre com um sorriso - valeu! lembrei do teu “chefe” que numas das reencarnações anteriores do teu blog tinha uma coluna e tal, não era?
abraço.
Oi Romano, o Chefe escrevia mesmo por essas bandas, mas agora já não escreve mais, já não é mais meu chefe e, infelizmente, já nem trabalhamos mais no mesmo lugar… bons tempos. :)