O Sergio Biasi, que sempre faz ótimas observações sobre a vida em NY, escreveu ontem sobre os músicos no metrô de NYC (com direito a video de um tiozinho hispânico tocando acordeão). A descrição dele pode parecer exagerada, mas é absolutamente fiel: aqui se vê diumtudo, musicalmente falando, tanto nas estações quanto — como vocês podem ver no vídeo — dentro dos próprios vagões.
Dentre os shows mais insólitos a que assisti dentro de vagão de metrô estão o de um grupo de hip hop imenso, todos cantando e dançando coreografados tipo backing vocal da Britney Spears, com direito a mortal e cambalhotas a la Didi Mocó. Isso tudo, lembrem, num vagão de metrô razoavelmente cheio de gente. Também curti um gordinho que fez um discurso e cantou Hero, da Mariah Carey, à capela, com uma voz linda. Só no meu vagão ele deve ter feito uns 15/20 dólares, em cinco minutos. No outro dia eu e Paulo vimos uma dupla de mendigos bem velhinhos, negros, que cantavam uma espécie de música country, com vozes no estilo dos velhinhos do Buena Vista Social Club. Espetáculo.
E uma das coisas mais legais que já vi foi um mendigo negro e também bastante velhinho que tinha uma verdadeira routine de stand-up misturada com músicas. Ele contava piadas curtas e, entre uma e outra, cantava uns jingles muito engraçados (que substituíam aquela tradicional bateria kataplash! do fim de piadas stand-up). As piadas eram todas, sem exceção, politicamente incorretas. Lembro de uma: “um mexicano, um porto-riquenho e um dominicano estão num carro; quem está dirigindo? O policial!”
Mas o mais emocionante de todos os números de vagão de metrô eu vi há apenas alguns dias. Entrei na Linha 1 na estação da 96, meio cabisbaixa porque tinha acabado de receber uma notícia não muito boa. Bem do nosso lado estava sentado um negro forte, de seus 35/40 anos. No banco em frente a ele, um menino de seus 8 anos. Dois outros meninos, um de 10 e um de 5 ou 6 anos estavam do seu lado, mas nós não havíamos reparado neles.
Assim que o metrô se pôs em movimento, o homem, que segurava um violão, avisou que ele e seus filhos iam cantar uma música e que precisavam de ajuda porque estavam com fome. Então eles começaram a cantar, os meninos tocando instrumentos de percussão. E a voz do pai era grave e bonita, mas rasgada como que pelo sofrimento que estava passando. As vozes dos meninos eram isso: vozes de meninos, agudas, puras, cristalinas. E eles tinham ritmo. E as vozes, os instrumentos, os olhares e sorrisos que eles trocavam, tudo se combinava perfeitamente. A música era linda. Falava de como a vida era curta e não devia ser perdida com besteiras. O refrão, que era mais rápido e animado, dizia: “we can work it out” (”nós podemos dar um jeito nisso”) e os meninos olhavam para o pai e sorriam com os dentes e com os olhos enquanto cantavam.
Fiquei com os olhos cheios de lágrimas, mais ainda quando descobri que não tinha absolutamente nenhum centavo na bolsa (nem eu nem o Paulo). Eles acabaram a música pouco antes de chegarmos na nossa estação, passaram para o vagão ao lado e começaram tudo de novo. E aquela família me lembrou, naquele domingo, que a vida é muito curta para eu gastar sofrendo por problemas, pois a gente dá um jeito neles.

lindissimo isso tudo, de fato!
essa musica que o pai cantou com os filhos eh dos Beatles, e eh maravilhosa…
“life is very short and there’s no time
for fussing and fighting, my friend”
beijos,
É verdade, a vida é curta demais, tanta gente com problemas tão maiores, e a gente se preocupa com besteiras…
Bem, algo insólito que eu vi no metrô quando estive em NY foi um homem com um gatão - isso, mesmo, um gato, que de tão grande parecia um filhote de tigre - amarrado na coleira. Ele entrou no vagão, sentou e o gato ficou aos pés dele, quietinho. Umas 4 estações depois, ele abaixou, pegou o gato no colo, e foi-se embora…. Sem exageros, o gato era maior do que uma criança de uns 4 anos… Surreal…
“A música era linda. Falava de como a vida era curta e não devia ser perdida com besteiras. O refrão, que era mais rápido e animado, dizia: “we can work it out” ”
Essa música fez parte da minha juventude, bem como todo o repertório dos Beatles. Foi uma enorme surpresa descobrir que uma pessoa educada como você não a conhecia.
Mas, claro ! Você nem era nascida !!!! =8-)) !!!!!
Envelhecer é um negócio muito estranho !
Pois é, né? É engraçado como são as coisas… outro dia também eu estava no trem número 1 a caminho de Columbia e entrou um velhinho, sozinho, com um acordeão, e começou a tocar Aquarela do Brasil, bem lentamente, com muito sentimento. Só instrumental. Eu nunca fui de patriotadas, mas quando percebi aquilo ali foi me envolvendo e trazendo memórias / lembranças / sentimentos… foi uma experiência surpreendente. É impressionante o que uma música pode despertar…
Puxa, eu nunca pego esse tipo de show. A única coisa que eu sempre via no metro de NY são mendigos fazendo xixi no chão… :-/
Ah! E aquelas estátuas vivas, que me dão medo.