Recapitulando. No capítulo passado, vocês conheceram alguns dos personagens da nossa história. Um guarda-sol tomou vida própria e fugiu de casa para explorar o mundo. Não foi muito longe. Ficou preso, o coitado, no topo de uma árvore na rua ao lado. Enfrentando a fúria de São Pedro munido apenas de suas havaianas azuis, Paulo ficou preso nos galhos da árvore, tal qual um gatinho de desenho animado.
No papel do transeunte-que-acaba-se-envolvendo-na-trama-sem-querer, um senhor de mullets — que vem a ser dono de um salão de cabelereiros, ó ironia! — tentou resgatar o guarda-sol (ou o Paulo, o que vier é lucro) com o cabo de um rodo. Os mullets ficaram molhados, mas Paulo foi salvo.
O guarda-sol, contudo, continuava no topo da árvore ao final do último capítulo. Vamos, portanto, à
Parte Dois
Pego o telefone e ligo para a Eletropaulo. Do lado de fora, São Pedro continua a despejar toda a sua fúria contra a cidade de Sampaulo. Depois de escolher as opções x, y e z na gravação, finalmente sou atendida por um ser (quase) humano. Explico meu drama, adaptando para o ouvinte:
“Olá fulano, boa tarde. No meio do temporal, um guarda-sol foi arrancado do meu terraço e foi parar no topo de uma árvore. Tentamos tirar com a ajuda de uma escada, mas ela é pequena demais. Estou muito preocupada (aham) porque o guarda-sol está muito perto dos cabos de alta tensão da Eletropaulo e, como a ventania continua, temo que a rua possa ficar sem luz.”
“Senhora, houve dano à rede?”
“Veja bem. Pooooor enquaaaanto, daaaano daaaano daaaaano, não. Mas o dano pode acontecer a qualquer momento, por isso estou ligando para vocês, para prevenir.”
E também para recuperar meu lindo guarda-sol de florzinhas e pássaros, claro.
Nada feito. Aparentemente, a Eletropaulo só envia uma viatura se a rua estiver sem luz ou um coitado for eletrocutado tentando resgatar um guarda-sol no topo da árvore.
Próxima opção: puliça. Conto a história toda de novo, dessa vez ressaltando o perigo que o pessoal (leia-se o Paulo) está correndo ao tentar subir na árvore para pegar o guarda-sol. Do meu lado da linha, imagino o puliça segurando o riso. Ele diz que eu preciso falar com o superior dele. Educadamente, o superior ele me recomenda ligar para a Prefeitura, departamento de parques e jardins.
Eu ligo. Há mais opções no menu principal do que sabores de Dragão Chinês na praia do Leblon. Não há a opção do departamento de Parques e Jardins. Escolho uma opção aleatória para me fazer de burra com o atendente.
Conto a história toda de novo, dessa vez ressaltando o risco iminente de danos à pobre árvore, coitada, especialmente porque o pessoal (leia-se o Paulo) está subindo nela de forma truculenta. Explico que já liguei para a Eletropaulo, aqueles insensíveis que só se importam com o lado material da questão e não ligam a mínima para a pobre árvore. Explico que a puliça mandou ligar para a Prefeitura.
“Imagine, senhor, essa árvore não pode ficar nem mais um minuto nessa situação!”, eu clamo.
A Prefeitura discorda.
Numa última tentativa desesperada, ligo para o Corpo de Bombeiros. Mais uma vez, conto a história, mencionando que inclusive já ficou um homem preso tentando pegar o guarda-sol (tenho vergonha de dizer que foi o meu marido, então omito essa parte). Esbravejo sobre a insensibilidade dos outros órgãos para os quais liguei, sobre o absurdo da situação, sobre todos os perigos iminentes aos transeuntes, à árvore, aos cabos de alta tensão e à iluminação publica, etcétera.
“Senhora, eu entendo a situação. Mas veja bem. Nós estamos no meio de um temporal e, no momento, estamos atendendo ocorrências mais graves”.
COMO ASSIM? O QUE PODE SER MAIS GRAVE DO QUE O MEU LINDO GUARDA-SOL DE FLORZINHAS PRESO NO TOPO DE UMA ÁRVORE???
Me impressiono com a falta de capacidade do Corpo de Bombeiros de Sampaulo definir suas prioridades. Ao mesmo tempo, fico deveras emputecida com o Paulo por ter conseguido descer da árvore (e, por consequência, com o Mullets, por ter ajudado no resgate). Estivesse o Paulo ainda preso no alto da árvore no meio do temporal e certamente estaríamos qualificados como uma ocorrência grave na ótica deturpada dos bombeiros.
Terminamos nossa ligação de forma muito polida, o bombeiro me pede que telefone quando o temporal passar e aí senhora vamos ver o que a gente podemos fazer, mas esse tipo de resgate não faz parte do nosso sirviço. Considero a possibilidade de atear fogo à árvore, mas lembro que está chovendo muito.
Nada do guarda-sol. O weather channel indica que amanhã vai ser um dia lindo e eu quero pegar um bronze no terraço. O meu nível de frustração é máximo.
E assim termina o segundo capítulo da nossa história.

cara, você me irrita com tanta competência para contar histórias.
o paulo precisa subir em árvores mais vezes pra vc narrar o episódio.
bjs,
Oi Paula:
Está acontecendo uma coisa muito interessante. Tenho uma vizinha, que nunca comentou no meu blog e nem sei se leu(rs!). Mas descobriu o seu link e estava dando risadas com sua aventura do domingo. Vingança! Vai ter que vir aqui. Por enquanto. E o que mais? Ah, adorei este negócio de aventura, e copiei a palavra e descrevi a minha, que não foi num domingo chuvoso, nem teve guarda chuva florido, nem rodo para salvar marido, nem mulets. Nem foi tão engraçado. Mas foi pensado e escrito por causa,
da sua competência pra contar histórias, que nem chego aos pés. Minha vizinha que o diga.
Se estou com inveja? Quer minha sinceridade ou prefere disfarse? Cruz credo! Nunca escrevi tanto. Só pra dizer, que o Paulo deve mesmo continuar a subir em árvores, como disse a Daniela, só pra vc descrever o acontecido.
Você é ótima.Parabéns!
Bjos
Meninas, vocês são tão boas pra mim. :)
Querida Paula, vou te falar uma coisa, se já falei em algum outro post, releve ,é a idade, rs:
eu ADORO ler tudo o que você escreve.
beijocas
Vamos ser práticas? Que tal o Paulo encenar que está preso na árvore e aí sim vc aciona os bombeiros? (Se ele for bom na interpretação, até fica preso de verdade novamente! rs)…
*
Bjs pros 2! =D
e que fim levou o guarda-sol? o vento levou?
bjs
Paula, ótimo que você achou tempo para continuar com o EPINION! Que tal abandonar o direito? Brincadeira, só queria registrar que você é imbatível em textos cômicos. Parabéns!!
Nossa, só percebi agora você parece com uma amiga chamada Maíra… dá uma conferida
http://www.orkut.com/Scrapbook.aspx?uid=18235861805499640772
É a sua clone baiana.
Bjks.
Paula, concordo com a Daniela
vc leu meus pensamentos em atear fogo na arvore
parece eu escrevendo sobre o train (naquele post do piui)
Um casinho meu (lindo por sinal) trouxe aqueles guarda-chuvas-souvenir (brega-chique) de Amsterdam, todo temático cheio de desenhos, e eu aqui, sem grana nem pra pegar o metrô, quanto mais pra ir pra Adam.
Juro que eu via os prédinhos históricos desenhados em chamas….
kkkkkk
beijo gata
Xi, só vi agora que o orkut é “nacripta”, enfim, se ficar curiosa, entra no meu orkut e vê as fotos da Maíra na minha listagem de amigos.
Beijos.
Rosângela, que bom, porque eu adoro escrever. ;)
Su, você acha que eu não pensei nisso??? Infelizmente, o Paulo não aceitou, ficou gritando que seria fraude. Princípios. Raios.
Marcia, continue acompanhando nossa novelinha. Só falta mais um capítulo agora.
Andy, imaginar as coisas alheias que não estão ao nosso alcance se incendiando é muito feio. Adoro.
Laura, ainda não consegui ver… Orkut é bloqueado no meu escritório e nunca lembro de olhar quando estou em casa.