Uma história de adoção

Vejam a história da Regina, que adotou aos 41 anos (separada) o Rodrigo, prematuro, cardiopata, com pedra nos rins, hérnia e alergia a lactose. É uma história emocionante: aqui.

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Mitos e realidades sobre o processo de adoção

Muita gente tem me perguntado sobre o processo da adoção, como funciona, quanto tempo demora. Dentre os muitos mitos e lendas sobre a adoção, me parece que o processo é um dos maiores e mais temidos. Ainda não iniciamos o nosso processo (daremos entrada essa semana), mas eis o que eu sei:

Burocracia. No mundo todo a adoção depende da apresentação de uma série de documentos, não seria diferente aqui. A obrigação do juiz, promotor, psicólogos e assistentes sociais é com o bem-estar das crianças e, por isso, devem fazer o possível para ter certeza de que a pessoa que se propõe a adotar é, de fato, capaz de dar ao adotado tudo o que ele precisa para ser uma criança feliz e bem cuidada. A lista de documentos varia de comarca para comarca (vale a pena uma primeira visita educacional na sua comarca), mas inclui, em geral, cópia de RG, CPF, comprovante de residência, comprovante de renda, atestado de saúde médica e sanidade mental e fotos da família e da residência (algumas comarcas também pedem declarações de idoneidade que podem ser feitas por amigos do adotante). É menos do que qualquer imobiliária do Rio de Janeiro pede a um candidado a locatário. Acho justo.

Habilitação. Não é preciso ter advogado para o processo de adoção, que é muito simples. Com a papelada pronta, o adotante dá entrada no pedido de habilitação no Cadastro de Pretendentes à Adoção (deve ser feito no Fórum competente, de acordo com o endereço do adotante). A partir daí, será designada uma entrevista com a assistente social e a psicóloga da Vara da Infância e da Juventude (em geral, num tempo razoável, no máximo alguns meses depois da entrada do pedido). Em algumas comarcas, depois da entrevista, a assistente social agenda também uma visita à residência do adotante. Passadas estas fases e com parecer positivo dessa equipe técnica, o adotante está habilitado.

A Fila. O mito de que a adoção demora só existe, na verdade, por causa da fila. A habilitação, em si, pode demorar tão pouco quanto uma semana (em comarcas do interior, pequenas e informatizadas), e costuma demorar no máximo alguns meses. Depois de habilitado, contudo, o adotante entra na famigerada “fila”. Isso significa que ele é incluído no Cadastro de Pretendentes à Adoção. Há uma outra fila importante: a das crianças disponíveis para adoção (aquelas que, além de já se encontrarem sob a tutela do Estado, em geral em abrigos, já estão com processo de Destituição do Poder Familiar - DPF pelo menos iniciado). Os profissionais da Vara da Infância e Juventude cruzam as informações das duas filas e a mágica acontece.

A Demora. Ora, se tudo é assim tão simples, por que a demora? Bem, como vocês já devem imaginar, o problema é que as duas filas acima não andam porque elas simplesmente não batem. Enquanto a maioria esmagadora da fila de adotantes busca recém-nascidas, meninas e brancas, a fila de adotáveis é composta na sua maioria por crianças de mais de 3 anos de idade, negras (e na maioria meninos, já que as meninas são mais adotadas). Outro problema é que há muitos grupos de irmãos disponíveis e o ideal é não separá-los. Como 99% dos habilitados não tem disponibilidade de adotar irmãos, as filas não andam.

Moral da história. O processo de adoção não é nenhum bicho-papão. É simples, barato e relativamente rápido, se comparado com qualquer outro processo no Brasil. Se o perfil de criança que você busca não é o padrão, ou seja, se você está interessado em adoção tardia, não tem exigência de raça, aceita grupos de irmãos, aceita doenças tratáveis (hiperatividade, dificuldade de fala tratável com fonoaudiologia, etc.), tudo isso vai impactar no tempo que seu processo vai demorar. Há casos que se encerram em poucas semanas ou meses.

Tudo é possível se você sonhar com uma família especial.

Paula

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Perguntas e respostas

A Zel fez algumas perguntas que eu acho ótimas e respondo sem o menor problema:

Por que adotar antes de ter filhos biológicos? Resp: Bem, no nosso caso, não fazemos diferença entre filho biológico e adotado, entao por que a ordem faria diferença? Nunca sequer consegui entender por que é tão importante para algumas pessoas ter o biológico antes do adotado. Afinal, não são todos filhos?

Vocês vão praticar algo como “licença-(p)maternidade” nos primeiros meses? Resp: Como alguém já esclareceu nos comentários, a mãe adotiva também tem direito a licença, pela lei brasileira. O período varia de acordo com a idade da criança, então como ainda não sabemos a idade do nosso filho, não sei quanto tempo vou ter de licença, mas certamente vou querer estar muito por perto nos primeiros meses, pois a adaptação é intensa (de parte a parte).

A vida de vocês vai mudar em função da adoção (especialmente a sua, que trabalha muito)? Resp: A vida de qualquer um que tenha filhos, sejam adotados ou biológicos, muda muito (acho eu). No meu caso específico que, como a Zel mencionou, trabalho muito, tenho um plano de almoçar em casa com os filhos, já que o jantar é quase caso perdido. De resto, acho que vamos fazer como toda família: tentar o melhor equilíbrio possível.

Existe algo como um período de adaptação? Como fazer a criança já grandinha se integrar à família? Resp: Sim, existe um período de adaptação na adoção, da mesma forma que existe um período de adaptação quando nasce um bebê (noites sem sono, mamadas, banhos, troca de fraldas, etc.). São adaptações diferentes, claro. A da adoção depende muito da idade da criança e das circunstâncias que a levaram a estar em um abrigo (maus tratos, abandono, abuso, etc.). Ou seja, cada caso é um caso. Tenho me preparado lendo tudo o que posso. O melhor livro que li em NY e trouxe comigo se chama Raising Adopted Children, da Lois Melina. Tira a maioria esmagadora das dúvidas de um candidato à adoção.

Bem, acho que é isso. Como toda paternidade/maternidade, por mais que se leia, pesquise, participe de listas de discussão e etc., as dúvidas são muitas e nunca serão totalmente sanadas. Não adianta fantasiar e achar que dá para estar 100% preparado para ser pai ou mãe. Isso, só a prática ensina.

Paula

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A opressão do Estado

Hoje fomos ao Fórum. Algumas pessoas que nos atenderam foram gentis. Outras, nem tanto. O Estado é opressor. Sentado na salinha, evoquei todos os deuses da liberdade.

Entendo que a burocracia é necessária. Mas há um momento em que o Estado se personifica. E, por alguma razão, a personificação do Estado me parece sempre monstruosa.

Haverá outras visitas. Só espero que o Leviatã não me engula.

Paulo Polzonoff Jr.

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uma solidão diferente

Eu não me importo tanto com a burocracia do processo de adoção pois, como sempre digo ao Paulo, eles precisam saber quem somos. No fim das contas, se você olhar com cuidado, os documentos servem apenas para comprovar que você é uma pessoa idônea, com uma renda que comporte ter um filho, com a cabeça no lugar e com uma família minimamente estruturada para receber uma criança. É o mínimo que o Estado pode fazer para cumprir as regras do ECA e pelo menos tentar garantir às crianças os direitos delas.

O que tem sido estranho, para mim, é essa gravidez tão atípica. Primeiro, porque não tem aquela coisa de contar pras amigas, receber parabéns, ganhar sapatinhos de presente, chá de bebê, essas coisas que toda mãe de primeira viagem sonha. Eu estou grávida mas é só na minha cabeça, dentro do meu mundinho. E mesmo as amigas mais chegadas, que dão parabéns, não se sentem à vontade o suficiente para fazer perguntas. Descobri que a adoção, em especial a tardia, envolve tantos mitos que as pessoas queridas preferem não dizer nada, provavelmente por medo de dizer besteira.

Segundo porque, mesmo dentro do meu mundinho, não posso - pelo menos por enquanto - curtir a “gravidez” como curtiria se tivesse um bebê crescendo dentro de mim. Se fosse este o caso, eu saberia que daqui a exatos 9 meses, talvez um pouco menos, eu teria um bebê recém-nascido em casa, cujo sexo eu saberia depois do terceiro ou quarto mês. Com base nessa informação, eu poderia decorar o quartinho, comprar roupinhas, brinquedos, etc.

No meu caso, contudo, sem saber quando chega o filho, se é menino ou menina, qual é a idade exata, quais são os gostos, etc., nada disso é possível. No outro dia pensei numa coisa que posso comprar: cds! Para cds de música clássica, historinhas, etc., não tem idade. Então, por enquanto, é a única coisa que penso que posso comprar para o “enxolval” do meu pingo de gente.

E vou seguindo nessa minha solidão diferente.

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Medo, pavor

Se eu tenho medo de ser pai? De jeito nenhum. A única coisa que me mete medo, pavor mesmo, nesta história de adoção, é a burocracia. Embora enxergue um propósito na papelada toda (afinal, “eles precisam saber quem a gente é”, como bem argumentou a Paula), a pilha de documentos e atestados me fazem pensar em O Processo, de Kafka. Mais do que uma poluição literária, esta lembrança é reflexo de um pavor natural da burocracia, da força que o Estado, o Leviatã, tem de se intrometer em nossas vidas.

De qualquer forma, fica aqui a lista dos documentos necessários para se começar o processo de adoação:

- Requerimento inicial (fornecido pelo Juizado da Infância e da Juventude ou fórum);
- Certidão de casamento ou prova de união estável dos candidatos, conforme sejam casados ou companheiros;
- Certidão de nascimento para os solteiros (mesmo os incluídos na condição final do item anterior);
- Comprovante de residência;
- Comprovante de rendimentos;
- Atestado médico de sanidade física e mental por médico particular ou da rede oficial de saúde;
- Carteira de identidade;
- CPF (Cadastro Pessoa Física) e Certidão negativa dos distribuidores cíveis e criminais, do foro de seu domicílio.
- Outros documentos, a critério do interessado, comprobatórios de sua aptidão para adotar.

Paulo Polzonoff Jr

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O outro lado da moeda

Se, como o Paulo muito bem disse, grande parte das pessoas não pensa duas vezes antes de fazer comentários desencorajadores, preconceituosos ou simplesmente inapropriados, há também muitas pessoas maravilhosas que oferecem apoio, informação e dicas.

 No domingo, passei o dia quase todo lendo mensagens em três comunidades do Orkut super especiais: a Adoção, um exemplo de amor, a Amigos do Coração/Família e a Adoção Especial. Lá, descobri uma porção de pais ou futuros pais na mesma situação que nós, que podem ter filhos biológicos mas optaram pela adoção (ou ambas as coisas) e que optaram por adotar crianças mais velhas (a chamada “adoção tardia”).

Foi reconfortante encontrar tanta gente sem preconceitos e bem informada, ver tantas famílias maravilhosas formadas pela adoção e dividindo sua experiência com outras futuras famílias. Espero que escrevendo sobre nossa experiência nesse blog nós também possamos ajudar a desmistificar um pouco a adoção (e a adoção tardia), dividir informação e, quem sabe, incentivar outros pais pelo Brasil afora que tenham o mesmo desejo que nós: formar uma família especial.

Paula

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A reação dos outros

Quando você torna pública sua opção pela adoção, é incrível como todo mundo resolve dar pitaco. E, quase sempre, o conselho é desencorajador. Há algum tempo estamos falando às pessoas que pretendemos adotar uma criança. Eu já perdi a conta de quantas vezes escutei histórias horríveis sobre crianças adotadas que se tornaram verdadeiros monstros.

Curioso: isto não acontece quando uma mulher está grávida. Ela exibe o barrigão e todos têm ótimos prognósticos sobre tudo, do parto à faculdade do ser que está por vir. Mas, como se sabe, a realidade não é esta.

Seria espírito de porco de minha parte, mas bem que dá vontade de retrucar às pessoas que têm sempre uma história má na mão todas as agruras do parto. A dor. A angústia do homem. Os fluídos e melecas. A deformação do corpo.

Não que eu ache tudo isto ruim. Não. Ter um filho faz parte da vida. E todas as coisas ruins da gravidez se tornam imediatamente coisas boas quando se pensa que, no futuro, há um ser novo em folha: seu filho ou filha.

As pessoas deveriam entender que, em se tratando de adoção, é a mesmíssima coisa. Haverá problemas, claro. Tudo bem, é possível que não haja melecas. Por outro lado, há toda uma cansativa burocracia. Mesmo assim, os percalços são bem menos difíceis quando se pensa no que nos aguarda no fim do túnel: um filho ou filha.

Paulo Polzonoff Jr

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Estréia amanhã, dia 7 de janeiro

Estréia amanhã, dia 7 de janeiro

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