Eu tinha um professor de biologia que, sempre que faltava pouco tempo para as provas, gritava no final da aula: “AGORA É A HORA DA VIRADA!”. Isso porque ele sabia — e aparentemente não se incomodava, o que é um traço de inteligência raro — que os alunos tinham cagado e andado para a matéria dele durante todo o semestre e que, agora, faltando dias para a prova final, iam correr atrás do prejuízo feito loucos.
Esse conceito da “hora da virada” me perseguiu por toda a vida pós-colégio. Eu vivo a vida no esquema “hora da virada” com todas as minhas forças. O esquema funciona assim: durante o semestre, você vai à praia, come fora, lê Charlote Brontë em vez dos livros obrigatórios, descansa na rede, brinca com os gatos, sai com os amigos, bebe champagne, deita e rola. Nas raras ocasiões em que você pensa, não-gente-não-posso-ser-assim!, e quer ser uma pessoa melhor e vai à aula, você tenta prestar atenção no que o professor fala, mas tudo o que você ouve é a voz da professora do Charlie Brown dizendo mó mó mó mó mó. Do alto destes meus 30 anos de vida, posso dizer: o esquema “hora da virada” é um hábito duro de largar.
O drawback de viver a vida no esquema “hora da virada” é que eu tenho pesadelos que são exatas réplicas daquele filme dos anos 80 em que os alunos curtiam o verão inteiro e, na véspera da prova, o carinha principal colocava as mãos na cabeça e gritava: “EU NÃO SEI NADA! EU NÃO SEI NADA!” Eu tenho sonhos recorrentes de que estou fazendo uma prova para a qual eu não estudei, de uma matéria cujas aulas eu não assisti e com perguntas que eu não faço a mais remota idéia de como responder. Sim, já aconteceu na vida real também.
Mas o grande lance é que, no Brasil, eu sempre consegui me safar com o esquema “hora da virada”. Faltando poucos dias para a prova eu pegava o livro, fazia uma leitura em Z (você lê a primeira linha, depois o “miolo” na diagonal e por fim a última linha) e na hora da prova eu conseguia me localizar suficientemente no material. Bem ou mal, me formei nos 5% da turma, o que significa que todo mundo era muito burro mesmo. Ou que o meu domínio do método “hora da virada” é espantoso. Ou as duas coisas.
Aqui na gringa não deu pra viver a la dolce vita durante o mestrado. Não dá pra se alienar quando, para cada aula, você tem que ler 100, 150 páginas e SABE que o cara irá te perguntar detalhes cabeludos da leitura. Lembro da minha primeira aula de law and literature, eu me achando a foda porque tinha lido o livro todinho e os textos de crítica literária e as decisões judiciais indicadas, tudo isso pra ficar com cara de tacho quando o cara me perguntou porque o apelido de um dos personagens do livro era aquele. Tipo, COMO DIABOS EU VOU SABER POR QUE RAIOS O APELIDO DO CRIATURO ERA AQUELE???
Enfim, eu fiquei uma pessoa aplicada. Mas eis que, no meio desse semestre, eu fiquei doente uns dias e precise perder algumas aulas de uma das minhas matérias. Depois disso, eu virei o Charlie Brown nas aulas que se seguiram (sabe aquela parada de perder o fio da meada? Pois. Perdi.) E eis que a prova final é na segunda-feira e eu estou acampada na biblioteca da faculdade há dias, vivendo a mais intensa HORA DA VIRADA de toda a minha vida. Tô aqui, estudando dicumforça. Mas aí, amigos, chega uma hora em que eu me deparo com o seguinte trecho no livro:
“(…) proceeds of proceeds are themselves proceeds of the original collateral. And proceeds of those proceeds, which were proceeds of proceeds would be proceeds as well.”
E eu pressinto que meus pesadelos recorrentes vão retornar.

Traduzindo:
“rendimentos de rendimentos são eles próprios rendimentos da garantia (caução) original. E rendimentos destes rendimentos, que foram rendimentos dos rendimentos, seriam rendimentos também.”
Como diria o Caetano: ou não.
Paulo valeu! eu ia ter que pegar o dicionário. Analisando minha vida, eu tô sempre querendo a hora da virada…mas nem sempre ela chega, rs
Retificando, Paulo valeu a tradução, pois o intendimento(como diria um chato que trabalha comigo) foi zero, ahahahaah
Ou “mómómó”.
Esses ’sonhos’ são os piores.
Eu, na minha hora da virada que está durando algumas semanas, estou a alguns dias da 2ª fase da OAB. E há uma semana sonhando com a minha chegada ao local da prova, e cada vez é um enredo diferente. Segunda-feira eu ia sem nenhum livro ou código na mão, enquanto as pessoas carregavam caminhões - literalmente, o que é mais bizarro! - e malas de livros. No sábado, tinha o desenho de um corpo humano aberto (??) na prova e eu sem entender bolhufas. Ontem foi a vez de errar o dia da prova e chegar no lugar no dia seguinte. Depois de ler esse seu aí, provavelmente hoje será o do “EU NÃO SEI NADA!”. Ai, a mente humana.
Meu deus!
É de uma compilação de trava-línguas (tongue twisters)?
Tipo:
She sells seashells on the seashore;
The shells that she sells are seashells for sure.
So if she sells seashells on the seashore,
I’m sure that the shells are seashore shells.
:-P
“(…) proceeds of proceeds are themselves proceeds of the original collateral. And proceeds of those proceeds, which were proceeds of proceeds would be proceeds as well.”
a-han…
Bom, eu confesso que o próprio autor tira um sarrinho de si próprio na frase seguinte…hehehe
Rafaela, prova da OAB é uó mesmo, aquela malona de livro e aquele povaréu com cara de desesperado. Uma lástima. Que bom que você me acompanha no mundo dos pesadelos pré-prova. (o foda é que eu tenho esses pesadelos mesmo quando não estou perto de ter prova nenhuma ou, pior ainda, mesmo quando nem estou estudando!)…
Diego, pode parecer incrível, mas não é de trava língua não. E mais, isso é um trecho do livro de Examples & Explanations. Ou seja, é tipo assim uma versão MAIS EXPLICADINHA da matéria. Acredita???
Apenas para você não se sentir solitária: eu passo pelo mesmo perrengue.
Também sou adepto da “hora da virada!” way-of-life e sofri aqui no UK. A cada aula tem um seminar que o teu professor pergunta tudo do estudo de caso de 30 páginas que ele colocou na intranet para vc imprimir, ler, analizar e chegar com tudo decorado na ponta da língua. Prova aqui são de 3 horas cada matéria e contam por 70% da nota final. Nada de múltipla escolha, apenas 3 ou 4 perguntas que você responde em forma de redação de 4 páginas cada. Enfim, não estudou? Rodou na mão do palhaço, mané.
Acho que devemos fazer uma comunidade no Orkut ou grupo de dos virados anonimos. (se bem que virado soa com outra coisa que pode levar a outras interpretações).
Pois é, mesma coisa aqui, sendo que em vez de 30 páginas em geral eu tinha umas 75 a 150 por aula (multiplica agora por 4 matérias). E a prova é a mesma coisa, essay questions. Tô sentindo que vou rodar na mão do palhaço loucamente, em breve.
Eu tive, humm, uma pane em um seminário no fim do curso, sendo que eu já tinha apresentado trabalhos milhares de vezes…Foi horrível, eu esqueci tudo, não consegui enrolar o professor, nem sei como passei na matéria.
Humm, está lendo Jane Eyre da charlotte??
bjos e boa sorte, ou seria melhor méde? ou Quebre a perna?
Giselle, já li Jane Eyre e amo de paixão. Mencionei a Charlotte só por mencionar. :)
Alguem, teria a tradução do livro “Jane Eyre”? preciso para um trabalho da faculdade…
fiaria agradecida, se me mandassem.
;**
Carol, Jane Eyre já foi traduzido para o Português faz tempo. Basta você procurar em qualquer livraria. Boa sorte. :)