Um sonho
April 11, 2006

Quando fiz dez anos de idade, meu avô me deu uma máquina de escrever. Remington 10, vermelha. Linda. Era o presente que ele dava a todos os netos quando faziam 10 anos, uma verdadeira tradição familiar. Não precisava pedir, não precisava querer. Bastava completar os 10 anos combinados e lá estava a sua máquina, novinha em folha.
Posso dizer sem medo de errar que, dos 8 netos, fui disparado a que mais esperou e amou o presente, e a que mais se divertiu com ele. Passava dias inteiros escrevendo histórias, contos, listas de supermercado. Tudo era pretexto para usar a máquina vermelha. Lembro que muitas vezes meus dedos finos e miúdos escapavam e ficavam presos entre as teclas, mas aquilo não era impedimento. Eu ostentava com orgulho as feridas feitas pela minha máquina: briga de amor não dói.
Alguns anos depois, comprei uma máquina elétrica, mais por pressão tecnológica que por preferência. Usei muito pouco. Fui morar com meus avós e as máquinas ficaram para trás. Não sei o que minha mãe fez delas, mas é provável que tenha dado. Nunca mais vi minha maquininha vermelha.
Se arrependimento matasse…oh. Não tenho como explicar o quanto eu queria ainda ter aquela máquina. Um dos poucos presentes que meu avô — que também era meu padrinho — me deu. Não que ele não fosse generoso, mas como muitos homens mais velhos ele preferia muitas vezes dar um pacotinho de dinheiro para poupar aos netos as comuns decepções com presentes indesejados. O que não se aplicava, é claro, ao caso da máquina-dos-10-anos, pois, afinal, qual criança de 10 anos não quereria uma máquina de escrever só sua? Bom, na cabeça do meu avô, nenhuma. E, num mundo ideal, meu avô estaria certo.
Xeretando no mercado livre, encontrei essa máquina da foto. Tão parecida com a minha. E meu coração ficou pequenininho.
Filed under: Vida: modo de usar
Ter recordações assim faz bem ao coração.
No meu caso foi o 1º som que ganhei de uma tia. Está bem guardado até hoje e toca que é uma beleza. Só não digo quantos anos tem… :c)
Adoro seus textos.
Eu querooooo!! Puxa, já está finalizado…foi você que comprou?
Eu ganhei uma máquina de escrever da minha mãe aos cinco anos. Era azul ou verde, nunca soube dizer direito. Ela ainda existe, lá em Campo Grande, e sei bem o que é prender o dedinho entre as teclas. Fazia um periódico que todos os moradores da casa eram obrigados a ler, datilografado em um papel cor-de-rosa. Meu sonho era uma maquininha branca. Quando eu já tinha uma idade avançada- 16 anos – consegui convencer meu pai a me dar dinheiro, cem Reais, para comprar uma máquina eletrônica portátil branca da Brother que tinha para vender na Mesbla. O barulho era ensurdecedor (parecia um pelotão de fuzilamento), mas tinha fita corretora. No entanto, tinha tanta saudade do tec tec tec da máquina convencional que vira e mexe lá estava eu na verde-azul.
Depois que me rendi ao computador e vim para Porto Alegre, a tec tec, que era grande e pesada demais para vir junto, ficou só na lembrança. Você acaba de me deixar mais nostálgica.
Beijos!!
PS: E uma máquina dessas, vermelha, devia ser LIN-DA!!!
Ainda mora lá em casa uma Olivetti verdinha… saudades…
Quanto eu tinha cinco anos eu queria uma máquina de escrever. Resultado: minha mãe me deu um pianinho. Deve ser o equivalente à relação autorama/ferrorama.
Sou um dos que tem a “nostalgia da máquina de escrever”. Mas nunca tive uma, era sempre emprestada. Até hoje acredito que escreveria muito mais numa Olivetti ou Remington. Apesar de gostar muito da tecla de retroceder do computador.
Quanto ao seu avô: não, ele não deu uma máquina para todos os netos. Ele esperava por você! Algo nele devia dizer: é pra ela! Ela vai saber o que fazer com isso!
Quanto aos avôs em geral: Paula, eu sempre pensei que os meus viveriam para sempre… Quando a minha avó morreu, me senti como um cristão diante da prova irrefutável de que Jesus não ressuscitou…